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Sábado, Janeiro 31, 2004
A boa solidão
Penúltimo dia de férias. Foi bom ter conseguido ir à academia e fazer os exercícios de musculação rigorosamente. Não foi bom criar o hábito de trocar o dia pela noite nem alimentar o meu vício pela Internet. Foi espantoso ter conseguido dar uma ajeitada na bagunça do meu quarto. E previsível ver que está quase como antes.
Interessantes foram esses últimos dias. Consegui viver momentos de solidão sem me desesperar. Alguns diriam que foi um período de reclusão, mas me senti sozinha mesmo. Não foi uma escolha. Porém, algo bastante necessário há tempos. Soube ver nesta solidão a oportunidade de refletir sobre os rumos que vou dar na minha vida.
O trabalho começa nesta segunda-feira, e já vem com uma carga extra, que será rigorosamente incrementada até meados do segundo semestre. Momento ideal para refletir sobre a carreira, algo que volta e meia tira minha estabilidade.
Também acabo de terminar um namoro. Decisão há muito adiada. Até mesmo tomada há alguns meses, porém anulada em alguns momentos de recaída e finalmente suspensa no dia do Natal. De qualquer forma, foi bom ter voltado para não restar dúvida de que o essencial tinha acabado: tesão, paixão, ânimo e teimosia. O amor já havia ido embora há alguns meses.
A solidão é útil para pensar sobre a maneira como gostaria de conduzir a minha vida afetiva daqui para a frente. Vocês diriam que afetividade não é algo que se possa conduzir. No entanto, prefiro colocar alguns parâmetros, estabelecer algumas metas que podem, e não necessariamente devem, serem cumpridas.
Existe uma certeza. Combinei comigo mesma que a partir de agora, só faço o que for da minha vontade. Nada de me anular para o outro. Nada de fazer o que não gosto - ou deixar de fazer o que gosto - para agradar. É importante ceder, blá blá blá. Sim. Em envolvimentos profundos, em namoros, e quando o outro também está disposto. Cansei de não ser eu mesma. E cansei de ver que ninguém se esforçou para ceder um pouquinho para mim.
A vida me espera. Descobri que há homens bonitos em Goiânia. E ainda preciso descobrir se são interessantes. Quero ver meus amigos e conquistar uns novos. Necessito ver gente. Necessito ser vista. Quero muitas pessoas perto de mim. E dividir com elas esse amor que ainda não tem dono. Uma peça que escrevi e que continua sem personagem principal. Por enquanto, tem sido bom estar sozinha.
Pegadas
Um raro momento de satisfação nesses dias em que o desânimo e uma infecção de garganta me abateram. Apesar da ineficiência do Blogger Brasil, que impede qualquer um de deixar comentário neste espaço, recebi um agradável e-mail da minha mais recente descoberta. Ana foi recomendação de um amigo e valeu a pena. Escreve impecavelmente, com uma sensibilidade e clareza na maneira de se expressar que encantam. Vale a pena deixar uma pegada no Walkwoman.
Pelo e-mail também chegou o comentário do amigo que me indicou a Ana. Ainda fez a gentileza de mandar uma letra de música linda, que condiz com o último post. Mas o melhor mesmo foi a definição que ele me trouxe para essa sede de mar. "Li em algum lugar que esse fascínio vem justamente do seguinte: foi no mar que os elementos químicos primeiramente se combinaram para dar origem à vida. Daí a vontade de sempre buscar o mar, como aquela coisa do eterno retorno. É uma tese bastante questionável, é claro, mas eu gosto de pensar assim". Eu também gosto.
Dinamarca
música Milton Nascimento / letra Gilberto Gil
Capitão do mar
Homem tão do mar
Do mar amar, como a um irmão
Capitão do mar
Homem tão do mar
Lembres que o mar também tem coração
Saudades, sim
O mar tem de ti
O mar triste e só
Depois do dia em que tu partistes, ó
Saudades, sim
o nórdico mar
Mar dinamarquês
Pede que venhas navegá-lo outra vez
Capitão do mar
Terás que vir uma vez mais
Nova embarcação,
Nova encarnação,
Nova canção, novo amor, novo cais
O mar e nós
Amigos fiéis
Amigos leais
Aqui a esperar teus novos sinais
O mar e nós
O norte, os confins
A barca, os canais
A Dinamarca e os seus carmins boreais
postado por GAROTA FRANCA (garotafranca@hotmail.com)
3:40 PM
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Sexta-feira, Janeiro 30, 2004
Mar
Meus quinze dias de férias estão acabando. Fiz quase nada nesse meio tempo. Era para ter viajado, mas não deu certo. E agora, eu fui invadida por uma desesperadora vontade de ir para o litoral. Mais ou menos como você ter saudade de algo que não aconteceu. De fato, nunca vi o mar, nem senti seu cheiro, nem entrei em sua água, nada. Isso é deprimente. Aliás, um clima de baixo astral anda rondando por aqui. No entanto, tenho planos.
Espero visitar o príncipe distante em breve. Imagino que seja bom estar com ele de verdade e não dessa maneira virtual. Essas fotos me fazem desejar ainda mais estar perto de sua beleza. Evito olhá-las, mas já o fiz tanto que nem é preciso fechar os olhos para lembrar de cada detalhe. Penso na visita para abril, mas ainda não escolhi o destino. Um amigo que se mudou para o Rio fez um convite. Mas ainda estou dividida. Será meu primeiro encontro com o príncipe distante. Quero que seja especial. E para isso, o Rio de Janeiro não tem me atraído tanto.
Aprecio mais os climas frios, porém o calor dele é irresistível. Seria mais fácil se eu desejasse um passeio pelo campo ou por regiões montanhosas. Mas a instabilidade do Mar mexe com a minha cabeça. Ora suas águas são tranqüilas, prontas para receber. Ora a ressaca bate e é impossível a aproximação. Às vezes ele parece que fica perto. Então me lembro que estou aqui, no interior do continente. E com todas essas contradições, não me espanta que ele seja o mais apreciado. Sempre há turistas querendo ir ao seu encontro. Usufruir daquela terra de maravilha. E, mesmo à distância, o Mar me é tão agradável que o turismo parece não ser suficiente. O desejo forte é de morar lá. No Mar.
Pense num lugar lindo...
Exceto pela parte do conforto e do dinheiro, essa música traduz bem meu estado de espírito nesse momento
Maresia
O meu amor me deixou
Levou minha identidade
Não sei mais bem onde estou
Nem onde a realidade
Ah, se eu fosse marinheiro
Era eu quem tinha partido
Mas meu coração ligeiro
Não se teria partido
Ou se partisse colava
Com cola de maresia
Eu amava e desamava
Sem peso e com poesia
Ah, se eu fosse marinheiro
Seria doce meu lar
Não só o Rio de Janeiro
A imensidão e o mar
Leste oeste norte e sul
Onde um homem se situa
Quando o sol sobre o azul
Ou quando no mar a lua
Não buscaria conforto nem juntaria dinheiro
Um amor em cada porto
Ah, se eu fosse marinheiro.
postado por GAROTA FRANCA (garotafranca@hotmail.com)
1:05 AM
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Quinta-feira, Janeiro 29, 2004
Diário
No começo era para ser, mas depois, conforme as pessoas foram chegando e avaliando resolvi que esse blog não devia ser transformado num diário. Pelo menos, não aquele tipo de diário adolescente, que eu já fiz bastante e me arrependi, pois a minha mãe acabou lendo. Quase me ferro por causa disso. Havia segredos que ela não podia, definitivamente, saber.
A partir disso resolvi que nunca mais registraria nada daquilo que eu não quisesse que fosse revelado um dia. Na verdade, sempre fui péssima para guardar segredos meus. Sempre, por mais que eu quisesse avaliar minha capacidade de guardar algo meu só para mim, acabava contando para alguém. Pronto, meu segredo estava exposto ao mundo.
Seria uma vontade instintiva de me mostrar? Com certeza. E isso serve não só para mim. Porém, tenho observado uma constante por todos os blogs que visito e revisito. Apesar de todas as histórias, desde as do tipo "hoje saí com fulano, fomos a tal lugar, e comemos tal coisa", até àquelas com as famosas mensagens subliminares, ninguém é capaz de se despir de fato.
Conclusão óbvia, claro. Como vocês mesmos podem notar aqui neste espaço. Adotei essa alcunha - Garota Franca - mas onde está de fato a franqueza nesses textos? Se num ou noutro ousei um pouco mais, talvez fosse pela ilusão de que a minha franqueza não chegasse aos olhos daqueles para os quais a direciono.
Girl at the mirror - Norman Rockwell
O Marco disse que acha interessante ler sobre o cotidiano das pessoas. Eu também acho, porém, nunca vi a utilidade do meu para a vida dos outros. Nesses tempos estive na busca de escrever algo que acrescentasse à vida de quem lê. Um observador não tão atento perceberia que não consegui, pois sempre falei exclusivamente de mim neste espaço.
Faltou a franqueza, a hombridade de admitir. Agora, tento me redimir. E amadurecer a idéia de que posso escrever sobre mim, e deixar isso bem claro para vocês. Aliás, deixar isso bem claro para mim mesma. Também concordo com o Marco quando ele diz que preciso fazer textos mais curtos. Sim, Marco, pelo visto sou mesmo aquele tipo de gente que não consegue escrever pouco. Quando o assunto é Paola. Pura vaidade.
postado por GAROTA FRANCA (garotafranca@hotmail.com)
1:29 AM
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Sábado, Janeiro 24, 2004
Memória
Minha infância não foi assim uma Brastemp, mas algumas memórias são curiosas. Dia desses me fizeram lembrar de um dos meus devaneios infantis. O devaneio sobre o Bairro Feliz, que povoou o imaginário da Paola de 8 anos de idade. Até que foi uma idade boa. Foi quando eu ganhei minha primeira bicicleta, uma Caloi Cecizinha, com cestinha e rodinha. Um sonho. Era vermelha. Não podia ser cor-de-rosa, porque todo mundo tinha Cecizinha cor-de-rosa. E era usada. Lembro bem. Foi à noite, minha mãe tinha feito um bolinho e cantou parabéns. Eu chorei quando vi a Cecizinha. Parece que ainda sinto o nó na garganta. E o "sem-gração" que fiquei quando caí só de montar na bicicleta.
Não sei porque cargas d´água eu fiquei sabendo da existência do Bairro Feliz. Ah, lembrei. Vi escrito numa daquelas lixeiras grandes da prefeitura "Cidade Feliz", e tinha umas florzinhas desenhadas. Onde seria a tal Cidade Feliz? Eu queria ir morar lá. Perguntei para minha mãe. "Não existe cidade feliz". "Existe, mãe, a fulana mora na Cidade Feliz". "Não, a fulana mora na Cidade Livre, lá em Aparecida. Você deve estar confundindo com o Bairro Feliz".
Na minha ilusão o Bairro Feliz ficava atrás do morro que dava para ver da porta da minha casa. Era um bairro em forma de parque de diversões. E tinha muitos jardins. Eu era louca para ter um jardim em casa. E o sol era mais bonito. Era aquele sol que dá depois da chuva. Aquele que espalha dourado por todos os lados e traz o arco-íris. Tinha uns três arco-íris o Bairro Feliz.
Insisti tanto para minha mãe me levar no Bairro Feliz que ela acabou falando que não tinha parque de diversões nenhum lá. Foi quase tão doloroso quanto descobrir que o Papai Noel não existia. Não ria. De qualquer forma, o que me fez lembrar disso tudo trouxe uma certeza. De que há um parque de diversões no Bairro Feliz.
postado por GAROTA FRANCA (garotafranca@hotmail.com)
6:54 PM
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Segunda-feira, Janeiro 19, 2004
Ética?!
Há algumas semanas eu estava conversando com o meu amigo Welson e ele, que na época estagiava numa faculdade particular, disse algo que me deixou revoltada. Na tal faculdade tem um curso de jornalismo e de vez em quando o Welson, por ser instrutor de informática, acabava por acompanhar algumas das aulas ministradas na sala de informática. Numa dessas, o Welson ouviu um infame professor dizer que "fazer assessoria de imprensa é falta de ética".
O fato de eu ser assessora de imprensa não é o único motivo pelo qual fiquei indignada com a declaração desse professor. Vai ser possível entender isso perfeitamente mais à frente.
Em março do ano passado eu fui demitida da rádio onde trabalhava sob a alegação de que era preciso conter gastos. Eu e mais quatro profissionais, de uma equipe (já reduzida) de dez jornalistas, fomos dispensados na mesma semana em que a TV Serra Dourada (SBT) demitia 20 funcionários e a Organização Jaime Câmara - que engloba a TV Anhanguera (Globo), Rádio CBN Anhanguera e Jornal O Popular - dispensava também umas dezenas de profissionais. Entre estes, um cinegrafista que estava na TV desde que ela foi fundada, há algumas décadas. Ao mesmo tempo o Diário da Manhã, o segundo maior jornal do Estado, demitia mais uma penca de jornalistas e atrasava até dois meses de salário de quem havia conseguido se manter no emprego. No Tribuna do Planalto - o semanário com a maior redação em Goiás - houve demissão e redução de salários.
O mercado ficou estagnado durante uns dois meses, período em que nenhum veículo contratou. Durante esse tempo fiquei desempregada, até que consegui um posto numa empresa que edita um semanário e tem um programa na TV. Foi através desse trabalho que consegui o emprego que tenho hoje. Conheci o meu assessorado fazendo cobertura política. O convite para trabalhar iveio enquanto ele esperava a hora de ser entrevistado no programa de TV do qual eu era produtora.
No segundo ano de faculdade comecei a estagiar. Detalhe: naquela época o estágio em jornalismo era proibido, sob a alegação de que, caso fosse regulamentado, profissionais seriam demitidos e em seu lugar seriam contratados estagiários. Balela. Mas voltando ao que eu queria dizer, naquela época eu estagiava na própria universidade, fazendo reportagens para um encarte especial que circulava todo domingo no Diário da Manhã. Uma repórter desse jornal havia sido contratada pela universidade para coordenar o tal encarte. Sorte, pois ela amargava três meses de salário atrasado. Lembro do desespero dela quando precisou comprar remédio para a filha de três meses de idade.
Será que alguém de fora pode imaginar que isso tudo acontece na nossa área? E será que alguém faz idéia de quanto ganhamos em média? Bom, até hoje eu não conheci um jornalista rico, ou pelo menos da dita classe média alta. Todos levam uma vida simples, e muito menos abastada do que qualquer outro profissional com diploma de curso superior. Também, com um salário que, na média, fica entre 800 e 1000 reais, não dá mesmo para fazer fortuna.
E como se isso tudo não bastasse; como se a ameaça constante de ser demitido, o salário baixo e atrasado e o estresse inerente à profissão; ainda existem dezenas de colegas atuando sem o mínimo benefício a que um trabalhador tem direito: a carteira assinada.
Ano passado fui na festa de aniversário de um jornal. O coquetel foi realizado no humilde ambiente de trabalho do proprietário. Uma ampla sala com parede e portas de vidro se abrindo para um jardim maravilhosamente arquitetado por um paisagista. Comentava-se que, somente na decoração da sala, o dono do jornal havia gasto 50 mil reais. Na ocasião ele havia acabado de comprar uma cobertura no Bueno - um dos bairros mais caros de Goiânia - com direito a decoração não menos "modesta". Até onde eu sei, ele havia adquirido o quadro de um artista goiano por módicos 70 mil reais.
Qual é o problema disso tudo? O cidadão não tem direito de ostentar, de gastar a grana dele com a decoração do escritório? Bem, talvez o dinheiro tenha "dado" justamente pelo fato de que ele não assina a carteira de nenhum de seus funcionários. Nem sequer os beneficia com o 13º salário. "Mas em compensação paga rigorosamente em dia", me disseram. Eu me rendo. Afinal, diante de tais circunstâncias que envolvem o exercício da nossa profissão, a mais simples obrigação de um patrão - pagar em dia - acaba sendo um privilégio concedido aos empregados.
Vocês acham que eu gostaria de trabalhar nesse jornal? Mas é claro. E falo sério. Afinal, pelo menos ele paga em dia. Mas enquanto não arranjo um emprego desses, vou agradecendo a Deus pela sorte de me dar a oportunidade de trabalhar como assessora de imprensa.
Quando entrei na faculdade, o curso de jornalismo da Federal era o único no Estado. A UFG oferecia 40 vagas. A turma terminava com no máximo 30 pessoas. Isso, para o nosso mercado saturado, já era muita coisa. Ainda assim, no ano em que me formei, a Alfa inaugurou o curso de jornalismo, que vai despejar cerca de 90 profissionais no mercado, por semestre. Para piorar a situação, a Fasam - na qual o medíocre professor do início da história ensina a suas cobaias que assessoria de imprensa é falta de ética - também vai formar, por ano, cerca de 60 jornalistas. E a Cambury está realizando um vestibular para compor a primeira turma de seu curso de jornalismo.
No entanto, até hoje - dois anos após me formar - esbarro na rua com colegas de turma que estão desempregados. Como uma moça que cansou de gastar a sola do sapato e foi trabalhar na Vivo. Enquanto jornalistas estão trabalhando sem carteira assinada e muitos sonham com o salário em dia, o nosso sindicato se engaja na "luta pela obrigatoriedade do diploma de jornalismo". Diante de tamanha contradição e de inúmeras desigualdades tipicamente brasileiras, fico tentando desvendar o significado da expressão que ecoa apoteoticamente da boca dos hipócritas. E que, porém, sequer consegue ser captada pelas células auditivas da consciência desses mesmos hipócritas.
Ética em jornalismo, para mim, é apenas o nome de uma disciplina que estudei no quarto ano de faculdade. Fora, isso, qualquer coisa que queiram denominar sob essa alcunha, não passa do mínimo cumprimento dos princípios básicos da vida em sociedade. Princípios esses que (e que fique bem claro) são, ou pelo menos devem ser, praticados independente de ser na profissão de jornalista ou não. E pensar que a cada ano aumenta a concorrência no vestibular de jornalismo da Federal. E pensar que as particulares preenchem com folga suas vagas. E pensar que eu ainda não desisti.
postado por GAROTA FRANCA (garotafranca@hotmail.com)
4:06 AM
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Terça-feira, Janeiro 06, 2004
Frigidez
Sei. Eu sei que isso aqui está precisando ser atualizado. Não. Não é falta de tempo. Absolutamente. O fato é que ando meio desanimada mesmo, sem perspectivas, sem idéias novas, sem tesão. Isso é o que é o pior: a falta de tesão. Já pararam para pensar nisso? Não. Esse post não é sobre o tesão. Nem sobre a força sexual que rege a nossa existência. Não é sobre Freud. É sobre mim mesma, que acho que não vou ser ninguém mais que Paola Franco, a desconhecida. Eu tenho um bicho dentro de mim, que precisa ser alimentado com algo notável. Se não o alimento ele me devora. Preciso fazer algo notável, fazer algo que entre para a história. Fazer, esse verbo - verbo/ação - é muito forte. Digamos que eu queira participar de algo histórico. Algo que permita que se lembrem de mim depois. Mas para que querer ser lembrada? Vaidade? Ego inflado? E ainda correria o risco de ter o triste fim do Coronel Aureliano Buendía, que fez trinta e duas guerras civis e perdeu todas e seu nome foi apagado da memória duas vezes, pelos derradeiros habitantes de Macondo, que acharam que ele nunca existiu, e pelo vento que varreu a cidade da face da terra e a desterrou da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilonia acabou de decifrar os pergaminhos. Talvez eu perca as minhas guerras pela péssima memória que tenho. Daquela que me permite lembrar de coisas importantes, mas sempre pela metade, como agora, em que tive que olhar de novo no livro para transcrever o trecho. Bobeira. Por que desejo algo notável se tudo em mim inspira preguiça, desleixo, descaso e desânimo? Para que mais um início de ano se os meus anseios e minhas decepções são seculares? Por que mais um início de ano, se ele me joga na cara a verdade que me faz sentir um pouco morta, um pouco insossa, um pouco frígida? Não acredito mais nos meus sonhos.
postado por GAROTA FRANCA (garotafranca@hotmail.com)
1:44 AM

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